quarta-feira, 23 de abril de 2008

Viena - Segundo dia - Última parte

Seguindo por esse caminho de surpresas e maravilhas, fui parar no Burggarten, um parque que resplandecia em sua verdura ao sabor do sol que se abria sobre a cidade. Sucediam-se estátuas de Mozart, Goethe (apesar de ser alemão, e não austríaco) e de outros ícones da cultura e da história germânicas.

Uma rápida caminhada ao redor do parque levou-me direto à Schetterlingshaus. Com o perdão do trocadilho, me senti em casa (SMOP, essa foi em nossa homenagem!!!). Borboletas azuis, vermelhas, marrons, em tons de tigre, verdes, amarelas, de todas as cores povoavam esse jardim que continha plantas, flores e um pequeno riacho. Tentei, em várias ocasiões, fotografar uma borboleta azul que reinava absoluta naquele viveiro, mas, em todas as vezes, a bichinha, arredia como só ela, insistia em fechar as asas que dão beleza ao seu ser.

Saindo desse reino encantado de borboletas e fadas, saí do parque. Atravessei uma rua para fotografar o Museu Albertina. Assim que cheguei ao outro lado, deparei-me com o prédio que procurara, sem êxito, por algum tempo. Contornei o prédio e vi a entrada principal da “Staatsoper”. A vontade de entrar e assistir a alguma ópera lá foi tão grande. Parece que a da noite anterior não fora suficiente... Na frente do prédio, havia mais rapazes vestidos com trajes de época convidando para um concerto à noite. Com o coração cortado, tive de recusar, mais uma vez, essa oportunidade do destino.

Após admirar bastante o prédio que abrigava a ópera, saí em busca de um café vienense, afinal, só fizera um das três refeições decentes (que não incluem McDonald`s) que planejava fazer durante a viagem. Ao invés de seguir em frente, fui contornando a ópera, sem me preocupar mais com o mapa. Achei que estivesse indo em direção ao café em que queria ir, mas fui em direção contrária.

Logo vi um parque com uma estação de metro “Karlsplatz”. “Ops, pensei, isso não estava no planejado... Era para vir aqui depois do café...” Mas, como não se discute om o destino, fui conhecer Karlsplatz. Lindo o jardim que se abria à minha frente, com seus desníveis verdejantes e seus canteiros de flores multicoloridas.

No meio da praça, tinha um lago. Em frente ao lago, erguia-se Karlskirche, com toda a beleza de sua cúpula verde e suas colunas cheias de desenhos com motivos religiosos incrustados por toda a altura. A linda igreja, duplicada em seu reflexo no lago, reinava imponente e indiferente sobre todos os que estavam no parque – turistas e os felizardos residentes da cidade.

Por conta do avançado da hora, temendo perder-me mais em meio a tanta beleza e deslumbre e acabar por não poder tomar o café planejado, voltei de metrô até Stephansdom. Da estação, segui pelas ruas comerciais maischiques da cidade. Vi as vitrines, ainda que fechadas, da Cartier, da Montblanc, da Tiffany`s (me senti a Holly Golithly), da Chanel e outras.

Finalmente, avistei uma ilha de mesas e pessoas sentadas e garçonetes e um cheiro maravilhoso que envolvia todo esse oásis em meio à rua vazia e às lojas fechadas. Achara meu destino: Demel – alta confeitaria. Encontrei uma mesinha na calçada e sentei-me. Pedi um heiße Schokolade e uma Annatorte. Chegou a torta, de 15 cm de altura – metade dos quais, chocolate puro. Veio o chocolate quente coberto com chantilly. Estava servido o banquete de cacau.

O chocolate quente de lá foi, sem sombra de dúvida, o melhor que eu tomei na minha vida! A torta estava fantásticas, vários tipos de chocolate que se misturavam e se distinguiam, cada ação a seu tempo. Devo admitir que, em alguns momentos, pensava que até para mim era chocolate demais... Terminado o festival gastronômico, fui à loja deles e tive de comprar alguns chocolates para levar.

Voltei para Stephanplatz – já quase 13h – e comprei umas lembrancinhas. Achei que teria tempo de fazer uma loucura antes de ir embora, então, entrei em um metrô e fui até o Danúbio para ver se ele é mesmo azul. Fui até lá e encontrei uma água em tom meio verde-amarronzado ou marrom-esverdeado. Desci até a margem, pensei em colococar minha mãozinha para sentir a água, mas ela não parecia das mais limpas... Subi de volta à rua, voltei ao metrô e resolvi voltar ao hotel.

Cheguei no hotel, arrumei tudo, tomei um último banho de banheira, sequei o cabelo, me arrumei, fiz maquiagem para me despedir em grande estilo da cidade. Desci e fechei minha conta. Após pagar e pegar toda a minha bagagem (uma maleta de mão e uma sacola de presente), saí e voltei a Stephanplatz, para ver se almoçava alguma coisa.

Entrei em um café bem em frente à Stephansdom. Sentei-me em uma mesinha e pedi um Schnitzel. Logo depois veio um Schnitzel grandinho até, mas delicioso, e uma salada com batata, tomate e rúcula. Comi todo esse almoço, tipicamente austríaco, podendo olhar a catedral à minha frente. De sobremesa, comi um legítimo Apfelstrudel e tomei um café vienense.

Nesse momento, perto da minha partida da cidade encantadora que passou a povoar meus sonhos, alguma coisa do alemão pôde voltar para minha cabeça. Consegui, inclusive, conversar um pouco com o garçom. Eu o entendia e ele me entendeu... Logicamente, errei muitas palavras, falava de um modo atravancado, mas, de forma geral, consegui me comunicar...

Despedi-me da catedral, do centro histórico, da cidade. Voltei ao escuro e úmido mundo subterrâneo do metrô. Peguei o trem que me levou à estação Südbanhof. Lá, consegui encontrar o trem que me traria de volta a Liubliana. Subi e sentei-me perto à janela. Ainda fazia sol e estava um dia lindo.

O trem começou a se movimentar. Aos poucos, os telhados se sucediam, cada vez mais rapidamente, e sumiam no horizonte, dando espaço a novos telhados. Senti um aperto no coração e as lágrimas nos olhos enquanto a velocidade do trem aumentava, distanciando-me, assim, da cidade que acabara de conhecer e pela qual acabara de ma apaixonar!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Viena - Segundo dia - Parte 1

No domingo, acordei com uma suave luz que invadia meu quarto, a despeito da fina cortina que tentava cobrir a janela. Levantei-me e me arrumei para conhecer realmente a cidade. Troquei de roupa, fiz uma maquiagem leve e arrumei o cabelo. Arrumei a bolsa e pus nela o mapa da cidade e o guia em esloveno.

Desci até o local do café da manhã. Peguei um croissant e um pão com passas e umas sementes que não identifiquei. Perguntada se queria ovos, respondi que não (ao contrário do meu hábito em hotéis), pensando que aquilo era muito americano, e que eu queria um desjejum mais europeizado. Comi o croissant e o outro pão com geléia de framboesa, tomei suco de laranja e chá verde, adoçado com mel. Saí e peguei o metrô em direção à praça central da cidade, Stephanplatz.

Ao subir as escadas que levariam do mundo inferior do metrô à cidade esplendorosa por ser descoberta, meus sensos foram tomados por completo. À medida que me aproximava do fim da escada, ouvia mais nitidamente os sinos que dobravam, chamando os fiéis à missa que começaria em instantes e logo vi a própria catedral que reinava, imponente, sobre a praça que levava seu nome. Estava no berço de Viena! Não pude conter a emoção que me tomava de sopetão. Quis registrar tudo com os olhos de meu rosto e da minha alma. Fotografei a catedral, admirei-a, quis tocá-la, mas temi desrespeitar aquela construção que, de tão imponente e poderosa, parecia nos oprimir aos mortais.

Tomei coragem e atrevi-me a entrar. Essa igreja estava tomada de fiéis, curiosos e turistas. Na nave, a missa corria em alemão, mas na parte inicial da Sé, todos os idiomas se misturavam, como uma Babel moderna incrustada em meio a todo o catolicismo germânico. Flashes luziam em todas as direções possíveis, tentando captar toda a magnificência daquela morada de Deus. A nave, as imagens, o órgão, o teto com suas abóbadas, tudo era alvejado por aquelas máquinas fotográficas que lembravam metralhadoras em meio à atual guerra por sempre mais informação e imagens.

Saí da Igreja com a alma plena de paz e calma. Sentia-me leve, como acontece amiúde, após sair de uma igreja. Comecei a andar sem saber exatamente para onde ia. Admirava cada novo prédio que via e caminhava seguindo minha intuição e as ruas e prédios que me prendiam a atenção, não olhava muito para o mapa que levava nas mãos.

O acaso levou-me a outra igreja, a de São Pedro (segunda igreja de São Pedro que encontro por acaso ultimamente). Nessa, não me atrevi a entrar, pois a missa já começara e não quis, de forma alguma, atrapalhar os serviços divinos que ocorriam lá dentro.

Continuei o passeio pelo centro histórico. Meus passos não seguiam nenhum caminho lógico, nenhum planejamento prévio, nehuma direção específica. Ao acaso, ia encontrando prédio magnifícos e seguindo um labirinto sem fim de construções imperiais e parques verdejantes.

Aproximei-me doParlamento. Aos poucos, comecei a ouvir “Canon”, de Pachebel. Essa música tão bonita e importante para mim (foi a que tocou na minha formatura) foi me chamando e, quando dei por mim, estava dentro do prédio, de frente para um rapaz vestido com roupas de época tocando violino. Isso tudo era para chamar a atenção do povo e convidar os transeuntes a um concerto que ocorreria mais tarde. Fiquei tão triste de não poder ir a um desses concertos...

Continuei meu caminho aleatório, apesar de menos aleatório, pois tentava seguir a direção certa para chegar ao Hofburg. Andava com passos incertos, tentando adivinhar o caminho e parando a cada momento para me maravilhar com alguma construção que me cruzava os olhos. Assim, quando quis afastar-me da Balhaus, para poder enquadrá-lo (apesar de ser neutro, uma das coisas que e ficaram das aulas de alemão) melhor na foto, atravessei um rua e vi o tão esperado Hofburg.

Esse foi o momento em que quis perder o trem e ficar lá para sempre. Andei muito para atravessar todos os jardins e ruas que me separavam do palácio. Finalmente cheguei. Logo na entrada, deparei-me com uma fila de Fiaker, que esperavam os turistas, os quais abundariam naquele belo domingo, garantindo, assim, o sustento de seus motoristas.

Andei ali pela frente, não ousando me aproximar muito. A essa distância respeitosa, observei o Palácio e os outros prédios – no mesmo estilo arquitetônico – que integravam o complexo (bibliotecas, museus, teatro, escola de equitação...). A cada momento, uma nova Überraschung, um novo maravilhamento. Em cada canto, a realização de um sonho e o sonho de ficar mais por lá.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Viena - Primeiro dia

A história começa na sexta-feira, por volta das 17h30. Olho para o calendário e vejo que só tenho mais dois finais de semana disponíveis para viagem. De repente, desespero. “O que fazer agora? Ainda queria ir a Viena e Budapeste. Vou ter que viajar amanhã”. Começo a ver possibilidades em Budapeste. Entro em alguns sites de hotéis, penso em escrever e-mail a um amigo de uma amiga, pedindo dicas, etc...

Minha colega diz: “Por que você não vai a Viena? Aí, se eu não puder ir a Veneza no final de semana (olha que situação: ela TEM que ir a Veneza a trabalho...), queria ir a Budapeste também.” Falei “OK, pode ser. Vou ligar para o hotel, se tiver vaga para amanhã, eu vou para lá”. Não tinha a menor esperança de encontrar vaga em um hotel maravilhoso e até barato que me haviam indicado. Liguei para eles e perguntei. A senhora simpaticíssima foi verificar e ligou de volta avisando que tinha um quarto disponível. Na hora, reservei-o e decidi ir a Viena.

Fui à estação de trem e consegui comprar minha passagem para o sábado de manhã e a volta para o domingo à tarde. Sentia bátegas de ansiedade invadindo meu ser. Estava feliz, ansiosa, mal podia esperar o dia seguinte. Arrumei uma pequena mala de mão com tudo o que achei que poderia precisar, que foi mais do que usei de qualquer forma. Fui dormir na esperança de sonhar com a cidade e de chegar lá mais rápido.

No sábado, acordo cedo e me dirijo à estação. Como não tinha idéia do que eu poderia ver na cidade, queria comprar um guia de Viena na papelaria/livraria no caminho. Ao chegar, perguntei se havia o guia e a atendente disse que sim, mas em esloveno. Pensei um pouco mas achei melhor comprar, junto com um mapa da cidade com algumas informações turísticas. No trem (cinco horas e meia de viagem), folheei o guia e decidi alguns passeios.

A chegada na estação de trem foi um pouco conturbada. Todos sabiam aonda ir, menos eu. Sentia-me perdida e sozinha em meio a tanta gente que sabia seus destinos e caminhos. Fui seguindo o fluxo, descendo as escadas rolantes. Procurava algum sinal, alguma coisa que eu pudesse ler, mas logo vi que meu alemão não embarcara comigo, ficara perdido, três anos atrás, quando larguei o Goethe para estudar para o concurso.

Depois de algum esforço e algumas horas, consegui descobrir como chegar à estação de metrô. Ao chegar lá: mais desespero. Não havia vivalma que me pudesse dar informações. Não hesitei em sentar-me no chão, abrir o mapa e tentar descobrir como chegar de um ponto a outro. Julguei ter entendido, mas um rapaz simpático me informou que eu estava no local errado, estava pegando um trem para sabe Deus onde...

Encontrei o local certo e consegui chegar à estação que queria. Saí pelo lado errado da estação, então demorei um pouco a encontrar a rua. Por fim, duas horas depois do desembarque, cheguei ao hotel.

Fiz o check-in e fui ao quarto: número 7 (prenúncio de boa sorte!). Abri a porta e descobri um quarto maravilhoso! Uma grande sala de estar, com sofá, escrivaninha, televisão e lareira; uma varanda que dava para o jardim, com mesinha e cadeiras; banheiro imenso, com banheira, secador de cabelo e espelho iluminado e um quarto com uma cama grande, macia e gostosa.

Deixei o material no quarto, lavei o rosto e saí. Fui de metrô até o Schloss Schönbrunn. Não pude entrar pois cheguei 20 minutos antes de o palácio fechar. Ainda assim, pude maravilhar-me com os jardins imensos, o próprio palácio amarelo, os muros altos e toda aquela aura imperial. Fiz um passeio de carruagem (Fiaker) em volta do palácio. Vimos os jardins, o zoológico, o labirinto...

À medida que a carruagem avançava, o céu tornava-se menos azul e adquiria contornos rosados e as nuvens ganhavam um tonalidade áurea que combinava com o palácio. Pessoas passeavam calmamente pelos bosques e jardins por onde, muitos anos atrás, também calmamente caminhava a Imperatriz Sissi.

Anoitecia em Viena. Mais do que isso, anoitecia em Schönbrunn. Aos poucos, os tons pálidos do céu davam lugar a um azul profundo como o oceano, contrastando com o amarelo claro da construção imponente. Tomei um café e fui assistir, ali mesmo, a uma ópera de marionetes. Foi encenada “Die Zauberflöte”, de Mozart – outro tesouro do país. Foi lindo! Havia momentos em que as marionetes pareciam pessoas, de tão reais suas vestes, figuras e movimentos.

Procurei um restaurante típico, para comer um Schnitzel. Após muito andar procurando um restaurante indicado no mapa turístico como um dos melhores da cidade, encontrei o local fechando suas portas. Procurei alguma coisa aberta lá por perto, mas não achei, pois estava na rua comercial da cidade e não na área turística. Acabei tendo que lanchar no McDonald`s, afinal, não comera nada o dia inteiro, apenas tomara um café antes da ópera.

Voltei para o hotel triste por não ter podido ir a um restaurante legal e extremamente cansada. Tomei um banho de banheira e fui dormir.